Bem-vindo viajantes

Bem-vindo viajantes! Esse blog tem como objetivo tornar público algumas questões, reflexões e vivências que tenho tido, daí o nome "Viagens de Paulo Pom". As postagens e discussões desse espaço envolverão os seguintes temas: meio ambiente, sustentabilidade, ciclismo e cicloturismo, montanhismo e vivência ao ar livre. Mas viagens por outros mundos também serão feitas...

domingo, 24 de julho de 2011

SÃO PAULO: A CIDADE DAS BICICLETAS


São Paulo, a maior cidade do hemisfério sul, com 11 milhões de pessoas.

Uma frota composta de 5,9 milhões veículos, cerca de 1 carro para cada 1,8 habitantes (mai/2009 - fonte Denatran e Ibge).  E apenas 35 km de ciclovias    (enquanto o previsto para 2012 era de 522 km se todos os planos e promessas de ciclovias tivessem sido cumpridas). 

São Paulo, apesar de ser uma cidade esquizofrênica, com um trânsito violento, alucinado e arriscado para o ciclista, pode ser considerada, de forma contraditória, como uma cidade das bicicletas. Já repararam a quantidade e a variedade de bicicletas que circulam pela ruas paulistanas?

Na semana do meio ambiente (4/jun/2011), dei uma palestra sobre a bicicleta como meio de transporte sustentável na cidade de São Paulo, na Biblioteca de São Paulo, juntamente com meu amigo Fábio-FES. Agora, resolvi discutir um pouco esse assunto aqui no blog.

O quadro abaixo fornece alguns dados sobre o tema. Chama atenção que, na região metropolitana de SP (uma conurbação que abarca S. Paulo e mais 38 municípios, com cerca de  20 milhões de pessoas), 300 mil pessoas usam diariamente a bicicleta para trabalhar:  

Diário de São Paulo - 15 de maio de 2011
Fico imaginando  se esse dado se refere as pessoas que usam a bicicleta tanto para se deslocar ao trabalho (meio de transporte), como também para trabalhar (como instrumento de trabalho).


Será que o trabalhador acima, que usa a bicicleta diariamente no centro de SP para entregar pães, é um dos 300 mil? 


E o cidadão acima, que transportava litros e litros de garrafas de cerveja, disputando espaço com carros pelas apertadas ruas centrais de São Paulo?



O amigo clicado acima está atravessando uma faixa de pedestres, na Av. São Luis, coração da Capital, com uma enorme bicicleta cargueira de pneus murchos. Será que ele, que abastece de água mineral os escritórios e lojas da região central, faz parte de tais estatísticas?


Foto publicada em algum jornal da Capital

E o herói da imagem anterior, que agora "se ferra" ao trafegar no cantinho da Estrada de Colônia, no bairro de Parelheiros, porque a prefeitura resolveu arrancar a ciclovia que estava ali?

Palestra na Biblioteca S. Paulo, no Parque da Juventude
Algumas dessas reflexões e imagens foram expostas e discutidas na palestra que mencionei. (http://catracalivre.folha.uol.com.br/2011/05/programacao-da-virada-sustentavel-na-biblioteca-de-sao-paulo/)

Agora, vou fazer uma série de postagens para compartilhar esse tema com os amigos, sendo na próxima vou falar um pouco da velocidade dos veículos e colocar outras fotos de situações peculiares de utilização da bicicleta em SP. Acompanhem e comentem!! 

BICICLETA ANTIGA - PHILLIPS NO PARQUE DA INDEPENDÊNCIA

Domingo, 17/jul/2011, foi mais um dia de veranico em pleno inverno na cidade de São Paulo. Perfeito para um leve passeio com minha bicicleta inglesa Phillips, aro 28, ano 1953 (estimado). E o local escolhido foi o Parque da Independência, situado no bairro do Ipiranga, em S. Paulo. 


O Parque da Independência, onde está situado o Museu Paulista (também conhecido como Museu do Ipiranga) fica a alguns metros de casa, então é um excelente lugar para levar esse tipo de bicicleta, cujo cuidado é todo especial. O parque não possui uma ciclovia, como existe no Pq. do Ibirapuera, aliás o espaço para pedalar é muito restrito. Todavia, a paisagem do parque, com destaque para as fontes e o prédio do museu, é incrível, assim é muito agradável desmontar da bicicleta e caminhar lentamente, observando cada lugar.


Quando levo a Phillips, muita gente vem conversar comigo, pergunta o ano, a marca e conta histórias sobre as clássicas. Nesse dia um cara interrompeu o passeio com a família para me falar sobre a antiga que ele tem, de nacionalidade theca, que pertencia ao pai e está encostada, precisando de reparos. Legal que ele se sentiu estimulado a cuidar da bicicleta dele quando viu a minha. 

A foto acima é da plaqueta original da minha Phillips, com o leão característico da marca inglesa.



Analisando o catálogo da fábrica Phillips, tudo indica que o modelo que possuo corresponde ao da foto acima. Segundo o catálogo, algumas características são:
- Quadro de aço temperado, submetido a 3 camadas de esmalte, filetado nas cores dourada e vermelho, com tamanhos variando dentre 22 e 28 polegadas;
- pinhão com 18 dentes;
- freios duas alavancas cilíndricas,   




Talvez esse modelo seja o mais conhecido das lendárias bicicletas Phillips, mas não era o único. Existiam muitos outros, até mesmo triciclos para crianças, como mostram as ilustrações ao lado e abaixo.
Em postagens futuras, vou colocar mais modelos do catálogo da marca Phillips. Mais informações sobre a minha bicicleta Phillips, o antes e o depois:


http://viagensdepaulopom.blogspot.com/2010_07_01_archive.html

CÓDIGO FLORESTAL: 24/mai/2011 - LUTO AMBIENTAL


Dia 24 de maio de 2011, 21hs.
Brasília - DF - Câmara Federal (a "Casa do Povo")
410 deputados aprovam o novo Código Florestal (do Agronegócio)

O Código Florestal é o tema geral da minha pesquisa de mestrado e por isso tem sido intenso o meu envolvimento com esse novo projeto de lei.

Aquele dia da votação foi um dos mais tristes desse ano de 2011. Na mesma semana, tive que dar uma aula sobre os processos políticos do Código Florestal para uma turma de graduação e meu desânimo era notável. 

Discordo de vários pontos do projeto aprovado na Câmara, de autoria do deputado Aldo Rebelo, por ser de total retrocesso ambiental. Foi nesse sentido que a mídia internacional noticiou o fato:

"Brasil enfraquece regras de conservação na floresta amazônica" (BBC - Inglaterra)
"Brasil concede impunidade aos desmatadores da Amazônia" (El País - Espanha)
"Brasil afrouxa restrições sobre o uso da terra na Amazônia" (Guardian - Inglaterra)
"Interesses agrícolas do Brasil marcam 1 a 0 contra proteção das florestas" (France Presse - França)

A discussão foi muito mais política do que científica. Aspectos científicos foram alijados desse debate, haja vista que a SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), com inúmeras questões pertinentes e resultados de pesquisas, não foi ouvida como deveria. 

Perdeu-se uma grande oportunidade de discutir verdadeiramente os inúmeros aspectos deste caleidoscópio: ambiental, social, econômico, regional etc. Infelizmente, questões políticas e interesses do capital (agronegócio) conseguiram promover uma discussão superficial e a toque de caixa.

Não é verdade que o Congresso discutiu esse tema durante mais de 10 anos. O projeto de lei que deu origem à proposta do deputado Rebelo é do ano de 1999, isso é fato. Só que, durante a maior parte destes anos, o texto de 1999 ficou parado ou teve andamentos de cunho burocrático.

A discussão que resultou no texto de Rebelo só começou em setembro de 2009, com a criação de uma Comissão Especial de Deputados para tratar do Código Florestal. Ou seja, de set/2009 até mai/2011 (menos de 2 anos) é que houve uma discussão efetiva para se mudar o Código Florestal vigente, onde se ignorou as recomendações científicas, se atendeu interesses do agronegócio e se produziu um texto completamente diferente daquele de 1999.

As recomendações científicas que foram desprezadas são fruto de inúmeras pesquisas feitas em universidades públicas, financiadas com dinheiro público. E assim é feito, pois a ideia é que as pesquisas formatem políticas públicas e possam resultar em benefícios para a própria sociedade. Mas não foi essa a lógica do projeto do Código Florestal do deputado Aldo Rebelo.

Uma coincidência trágica foi que, no mesmo dia da trágica votação do Código Florestal na Câmara, um casal de ambientalistas foi assassinado no Pará, muito provavelmente a mando de um latifundiário da região e por motivo de disputa de terras para expansão de criação de gado. A imprensa internacional não ignorou esse fato:

"Brasil: assassinam dois ambientalistas horas antes da aprovação de reforma florestal" (Clarín - Argentina)


O Brasil tem peculiaridades muito particulares:

- se a educação é ruim, inventam um sistema onde reprovações são minimizadas, ao invés de melhorar a qualidade das escolas;
- se alguém mata outra pessoa, uma lei permite que o sujeito permaneça em liberdade durante anos e anos respondendo ao processo, ao invés de criarem mecanismos de aperfeiçoamento da Justiça.
- se um caboclo desmata ilegalmente uma área, vem uma lei nova e o anistia.

O projeto aprovado na Câmara está no Senado agora. Não será feita a discussão necessária e é certo que no futuro vamos pagar muito caro por isso. Por outro lado, espera-se, ao menos, que os pontos de grande retrocesso ambiental sejam afastados. Como última esperança, conta-se com o veto parcial da Presidenta Dilma, que fez promessas de campanha nesse sentido e será cobrada no momento oportuno.

Mesmo afastando os pontos de grande retrocesso ambiental, essa nova proposta é ruim, pois ela consegue repelir o lado positivo do Código Florestal em vigor e, ao mesmo tempo, repetir seus erros cruciais.


Eça de Queiroz estava certo. Só que o problema é muito mais complexo, afinal nosso sistema eleitoral, político, administrativo e legislativo (pelo menos!) precisam de mudanças. Mas como, se aqueles que podem mudar se beneficiam do sistema atual? 

Mais sobre o Código Florestal (do Agronegócio):